terça-feira, 28 de outubro de 2008

Marceneiros de gente


Eu prefiro a verdade: com ou sem gelo. A verdade ao estilo cowboy, seca e ardente.

Mesmo preferindo a verdade, sei que, às vezes, muitos fazem dela uso para o mal. A verdade pode ser má, de repente.

Em relacionamentos afetivos, quando o outro é excessivamente sincero, isso pode detonar a estima do amado, ou da amada. Se a mulher está um quilinho acima do peso e o cara percebe isso e diz: "Nossa! Você está gorda!" . O mesmo pode ocorrer com eles. Há mulheres que pensam em mudar tudo, desde a roupa até o modo como o seu homem fala.

Imagina o quão doloroso é conviver com alguém que, a todo momento, fica lembrando você dos seus defeitos. Se você tem um pé gordinho demais, se você esbarra em tudo - o seu jeitinho atrapalhado que deveria ser um charme, vira um tormento - se você não consegue deixar o chuveiro desligado...se às vezes você ronca - quando está cansado. É preciso amabilidade para saber entender que o outro é humano, graças a Deus! Se fôssemos perfeitos não nos encostariamos no ombro de ninguém, nem choraríamos e, melhor, viveríamos sós. Nos bastaríamos.



Acho que depois dos vinte e voltzens, a gente conhece um pouco dos nossos defeitos. As estrias, as celulites, algumas manchas no rosto que sabemos que estão ali, mas está tudo bem. Uma falha no dente, uma tintura no cabelo que não combinou. O nosso jeito destemperado, o modo como dramatizamos, o nosso estresse, a nossa TPM... A gente sabe. E quando se procura alguém, a gente quer que essa pessoa também saiba, que tenha percebido os nossos defeitinhos de fábrica, mas que isso fique absorto pelo resto... e que outras coisas tenham mais importância.

A sinceridade gratuita é desnecessária. Se não há nada de bom a dizer, faz-se silêncio, é mais elegante.

Existem homens que são quase marceneiros de suas mulheres. Estão ali com seus pregos, porcas, parafusos e martelos. Usam palavras duras, serras elétricas, para moldar sua parceira. E ela aceita, como quem realmente precisa de reparos. Ela aceita porque não entende que ali está sua essência. Há mulheres que fazem o mesmo: "Você tem que parar de ser assim, caipira"..."Você fala engraçado". "Você isso e aquilo".


Depois que conseguem mexer nos seus parceiros, esses marceneiros os tratam como o que se tornaram: móveis. Enfeitam suas casas como sofás, mesas de centro e luminárias. São apenas mais umas peças na decoração. E aí perdem a graça. Móveis envelhecem, não combinam com as cores da moda - são doados, abandonados em quartos velhos e vão para o lixão municipal.

Pessoas não são móveis.
Faxineira Ponto G

4 comentários:

Lady D. disse...

Gostei muito do texto Ponto G.
Os defeitos sempre vão existir..e costumo dizer que gostamos de verdade quando essas pequenas imperfeições, algumas vezes até se tornam charme.
Quando elas começam a aparecer demais... talvez a coisa já não esteja tão boa.

28 de outubro de 2008 07:09
Kézia disse...

Amiga Ponto G, acredito que nós mulheres somos mais marceneiras de gente que os homens. Muitas de nós temos a necessidade de deixar o outro semelhante a nós mesmas. O duro é que, muitas vezes, só descobrimos que são as diferenças que nos unem quando isso já não tem mais importancia. Então fica o recado a todas as faxineiras, as diferenças são a essência do próximo. Tudo igual não tem a mesma graça.

28 de outubro de 2008 08:06
Diana Bitten disse...

"É preciso amabilidade para saber entender que o outro é humano"

Cada vez mais complicado, né?

Acho que esse é o grande problema atual.

28 de outubro de 2008 15:14
Criska disse...

É preciso amar como é... nada mais.

6 de novembro de 2008 21:02