Canção dos homens
CANÇÃO DOS HOMENS
Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver
fazendo – filho, panela ou computador – e venha me dar um beijo como os de
antigamente.Que quando nos sentarmos à mesa para jantar ela não desfie a
ladainha dos seus dissabores domésticos. E se for uma profissional, que divida
comigo o tempo de comentarmos nosso dia.
(...)
Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo, nem comente
nossa intimidade com as amigas, como tantas mulheres fazem.Que quando conto uma
piada para ela ou na frente de outros, ela não faça um gesto de enfado dizendo
“Essa você já contou umas mil vezes!”
Que ela consiga perceber quando estou preocupado com trabalho, e seja
realmente carinhosa, sem me pressionar para relatar tudo, nem suspeitar de que
já não gosto dela. Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o
tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse sinal de falta
de amor.
(...)
Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza e de ternura, me
desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela
seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz.
Que cuide um pouco de mim como minha mulher, mas não como se eu fosse uma
criança tola e ela a mãe onipotente; que não me transforme em filho. Que mesmo
com o tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o
jeito terno e divertido que tanto me encantou quando a vi pela primeira
vez.
(...)
E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco
consciente ou inconscientemente, ela saiba me chamar de volta com aquela ternura
que só nela eu descobri, e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse
e me tornasse mais feliz, menos solitário, e muito mais humano.
Postado por faxineira Lady D.













