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Banheiro feminino - espelho, espelho meu...




















Passa da meia-noite. Ela está na boate. Está tontinha, mas ninguém nota. Só ela sabe.
Até que resolve ir ao banheiro.

_Ana, vamos ao banheiro, amiga?

É de praxe, mulheres não vão ao banheiro sozinhas. Concentra-se para não dar mancada, anda um passo atrás do outro - devagar, isso: de-va-gar... Rebola pouco, já que rebolar está entre os indícios de embriaguez, e ensaia os passos até ao toilet.

Ao passar por uma cortina de metal que cobria a porta de entrada, não é uma persiana - mas parece - ela muda de fisionomia. O banheiro a transforma e muda também Ana, que até então parecia ter passado a noite à base de água com gás.

_Tô bêbada amiga.... - quem confessa é Ana.
_Eu também - ela diz enquanto se escora no espelho. Os olhos, antes brilhantes e cheios de rímel, agora estão vermelhos. O lápis preto borrou o blush. O batom é uma lenda.
O banheiro está lotado, elas falam pelos cotovelos, todas parecem Amy Winehouse, mas antes de entrar, curiosamente, estavam mais para Gisele Büdchen. No pufe, três mulheres estão jogadas.
_Nossa! Meu cabelo tá o puro cigarro - incomoda-se uma loira que antes parecia glamurosa na pista da boate.
Elas tiram os sapatos, passam pela maratona de usar o vaso sanitário público, pegam a bolsa de maquiagem e... fazem milagre!Amarram os vestidos, limpam os pés, calçam os sapatos, mexem nos cabelos. Se retocam. Ainda estão bêbadas quando deixam o banheiro, mas isso dura só até a cortina de metal. De lá, voltam a ser Gisele Büdchen, misteriosamente. Seus namorados nem percebem, nem podem. Existe uma mágica, depois que a cortina é vencida, esse é mais um dos segredos de banheiro, que por lá ficam.

Faxineira ponto G

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Tic tac






(Respira) Sete horas, acordar. (expira) 7h15 pegar jornal (inspira), 7h30 ler o jornal enquanto está sentada no vaso sanitário (pára!) - se lembra que viu há pouco, que ler enquanto defeca provoca, a longo prazo, o aparecimento de hemorróidas.

(Respira) 7h45 Escolher a roupa legal, sair de casa. (Expira)Telefone de casa toca...é engano.(respira) Celular toca: é problema. (expira) Atende. (respira) Dar comida ao cachorro, pegar as chaves do carro ou o cartão do coletivo.

Sai.

Meio-dia, volta para casa. Almoçou antes no restaurante? Nem sei. Pediu marmitex, fez um guisado de última hora. Quem sabe? Corre! Já são 14h. Tem que voltar.

É noite. Esqueceu-se de alguma coisa? O que era? Fez tudo certo. Chaves estão no bolso. A agenda do dia foi cumprida. Olha no relógio e passam das oito da noite. É tempo que corre.

Pensa: "quem inventou o relógio". Maldito seja. O tempo é cíclico ou linear? Lembra-se de uma aula de Semiótica.

Linear, conclui. “Caminhamos para a morte”, diz, sentencialmente, a si mesma. Ela sabe disso. Quem lê agora também sabe, “mas fingimos que é cíclico”, pensa.

Alguém já disse isso, agora penso eu. Inventamos um relógio cujo tempo se repete, é ela quem pensa. Um calendário onde há quatro segundas-feiras, quatro domingos. "Esse fim de semana acabou, mas semana que vem tem mais", pensa ela e todos os outros. Nunca um domingo será como o outro, cada domingo é único - alguém também já disse isso. Não importa.

Celular toca. Pausa. Atende ou não? Privado. Deixa tocar. "Quem seria?". Dormiria sem saber. Podia ter atendido. Pra quê? "Quem inventou o celular?" (Agora diz baixinho). Quem inventou a pressa?


Mas há algo errado. Falta alguma coisa. Ela olha... Não se lembra. Tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa para lembrar: conta de telefone, água, luz, esmalte velho na unha. Cabelo sem escovar. Dia dos namorados. Aniversário da mãe. Uma anotação que ficou sobre a mesa... A mente não capta mais. Está lá. O que seria? O dia chegando ao fim, um ritmo no peito que acompanha todo o resto do corpo. O que ela esquece?


_O que é?

É noite. Não dorme.


(Expira) Lembrou. Agora é tarde. Já era.


Faxineira: .G

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